É a isto que chamo “conversão” — uma mudança de rumo e um voltar-se para algo. Para mim, é o virar-se para um som na rua. Recentemente, dei por mim a pensar novamente no famoso episódio do Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamazov: aquela cena em que Cristo aparece após um auto de fé em Sevilha, no século XVI. E o Grande Inquisidor manda prender Cristo, e a cena desenrola-se, e Jesus não diz uma palavra, e então o Inquisidor conta a sua história. E o que fica claro pelo que ele diz é que não há problema em Cristo ir para o deserto e resistir às três tentações do diabo, mas, tendo passado também por isso, o Inquisidor decidiu que a felicidade humana era bem mais importante do que a liberdade humana. E é aqui que o debate se torna interessante. A posição de Cristo, que pareceria ser uma fé em Deus, é na verdade uma afirmação da liberdade.A fé só é fé na medida em que se afirma livremente enquanto tal. E este é o paradoxo da fé. Se a fé for mais do que isso, não é fé, porque não é uma escolha minha.Portanto, aquilo a que Cristo nos chama é à afirmação radical da liberdade em relação à "fragilidade" da nossa relação com a fé. A história do Grande Inquisidor encerra a confissão totalmente sincera de que a mensagem de Cristo não era sustentável e, por isso, teve de ser substituída — pela Igreja triunfal — pelo bem-estar dos fiéis, um bem-estar de consolo e contentamento trazido pelas três tentações do «milagre, mistério e autoridade». Esta é a contra-mensagem da Igreja, que o Inquisidor prometeu administrar. E é assim que nos encontramos no meio da intrigante questão de saber se a fé frágil e radical que Cristo nos confiou — a liberdade da genuína fé — é ou não compatível com as instituições políticas e eclesiásticas do poder terreno. Para mim, o ponto principal dessa narrativa é que Cristo não regressa como uma figura todo-poderosa e omnipotente. Reaparece como um ser humano frágil que é preso e levado — não sabemos ao certo para onde. A história termina com ele a sair da sala.

É a isto que chamo “conversão” — uma mudança de rumo e um voltar-se para algo. Para mim, é o virar-se para um som na rua. Recentemente, dei por mim a pensar novamente no famoso episódio do Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamazov: aquela cena em que Cristo aparece após um auto de fé em Sevilha, no século XVI. E o Grande Inquisidor manda prender Cristo, e a cena desenrola-se, e Jesus não diz uma palavra, e então o Inquisidor conta a sua história. E o que fica claro pelo que ele diz é que não há problema em Cristo ir para o deserto e resistir às três tentações do diabo, mas, tendo passado também por isso, o Inquisidor decidiu que a felicidade humana era bem mais importante do que a liberdade humana. E é aqui que o debate se torna interessante. A posição de Cristo, que pareceria ser uma fé em Deus, é na verdade uma afirmação da liberdade.A fé só é fé na medida em que se afirma livremente enquanto tal. E este é o paradoxo da fé. Se a fé for mais do que isso, não é fé, porque não é uma escolha minha.Portanto, aquilo a que Cristo nos chama é à afirmação radical da liberdade em relação à "fragilidade" da nossa relação com a fé. A história do Grande Inquisidor encerra a confissão totalmente sincera de que a mensagem de Cristo não era sustentável e, por isso, teve de ser substituída — pela Igreja triunfal — pelo bem-estar dos fiéis, um bem-estar de consolo e contentamento trazido pelas três tentações do «milagre, mistério e autoridade». Esta é a contra-mensagem da Igreja, que o Inquisidor prometeu administrar. E é assim que nos encontramos no meio da intrigante questão de saber se a fé frágil e radical que Cristo nos confiou — a liberdade da genuína fé — é ou não compatível com as instituições políticas e eclesiásticas do poder terreno. Para mim, o ponto principal dessa narrativa é que Cristo não regressa como uma figura todo-poderosa e omnipotente. Reaparece como um ser humano frágil que é preso e levado — não sabemos ao certo para onde. A história termina com ele a sair da sala.