Publicado em 06/03/202606/03/2026O livro do Génesis narra a história do ser humano vindo de um Outro que nos precede e nos excede, e esta história sagrada inaugural fala desta génese sagrada em termos de um yotzer, termo hebraico para aquele que cria, forma, molda – donde deriva um outro termo correlato, yetzer, que significa “imaginação” ou “figuração”. Esta configuração divina não tem nada a ver com o fabricante de facas de papel que molda cada criatura à maneira de uma planta ou patente, como defende Sartre em ‘Existencialismo e Humanismo’ (se Sartre tem razão, então sou ateu). Trata-se, antes, da ideia de princípio enquanto natalidade radical, um salto para o novo, de um mais vindo de um menos, de algo a surgir do nada, creatio ex nihilo. Numa palavra, o primeiro acto do impossível a tornar-se possível.O mesmo se pode dizer de outros nomes para Deus: pai, mãe, anfitrião, hóspede. É tudo uma questão de hermenêutica. A frase joanina “No princípio era o Verbo” significa que no princípio era a hermenêutica. Não há como escapar ao círculo hermenêutico, não há como escapar à linguagem. E por que razão haveria? Palavras, nomes e metáforas são tudo o que temos para expressar um profundo sentimento de que existe algo irremediavelmente outro na nossa experiência, algo que nos chama, e que recebemos esse chamamento de algo para além de nós próprios, mesmo enquanto o reinterpretamos e recriamos constantemente. A creatio é, na verdade, um conflito vibrante entre nomes, uma tentativa de articular e comunicar o que queremos dizer quando afirmamos: “Ouço um chamamento de um Outro; recebo uma dádiva de um Outro; recebo um poder para tornar possível o impossível”.Chamo a isto hospitalidade ao estrangeiro. E aposto que esta formulação ou figuração da experiência sagrada está na génese das grandes tradições de sabedoria e, acrescento, da experiência de fé quotidiana de muitas pessoas. A tradição, na sua forma mais antiga, funciona hermeneuticamente para nos fornecer narrativas, mitos, memórias e parábolas. Esta última forma de experiência funciona fenomenologicamente para nos oferecer exemplos comuns e existenciais.E a literatura e a arte misturam frequentemente estes dois tesouros de testemunho.