Não sabemos se o salmo 23 foi escrito na Babilónia mas é mais que certo que a imagem de Deus-pastor se desenvolve durante o exílio. Um povo exilado, humilhado e sem templo, conseguiu ver o oásis verdejante junto aos rios da Babilónia, foi capaz de viver aquele deserto como pastagem restauradora, conseguiu ler uma salvação naquela desventura, ver um Deus-pastor num Deus derrotado. A transformação dos acampamentos da Babilónia em prados verdes pelas águas frescas foi possível graças ao talento daquele antigo poeta, mas a alquimia foi possível, também, porque entre os exilados havia profetas. A profecia é o princípio activo que transforma os desertos em oásis, prisões em libertações, o bastão do carcereiro em cajado do bom pastor. Dois profetas que estavam no exílio em Babilónia – o Segundo Isaías e Ezequiel – deram-nos as imagens proféticas mais nítidas do bom pastor, que chegarão aos Evangelhos e os fecundarão: «Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas, Eu as farei descansar – oráculo do Senhor Deus. Procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei a que está ferida e tratarei da que está doente. Vigiarei sobre a que está gorda e forte. A todas apascentarei com justiça» (Ez 34,15-16). É do profeta anónimo, conhecido como Segundo Isaías, o ícone mais sugestivo do "bom pastor", que tanto influenciou a arte e a piedade popular: «Leva os cordeiros ao colo, e faz repousar as ovelhas que têm crias» (Is 40,11). Sem profetas exilados, aquele povo teria deixado de cantar: «Sobre os rios da Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das margens pendurámos nossas cítaras (Sl 137[136],1-2). As cítaras não foram dependuradas para sempre, a alma dos poetas não deixou de cantar porque, graças a estes grandes profetas, o povo exilado fez a experiência do Deus pastor; sentiu que aquela noite era uma travessia no caminho da salvação, era um outro vau nocturno donde sairiam feridos e abençoados. Nenhuma noite mata a alma se um profeta nos revela o sentido. Nas nossas noites, a voz dos profetas pode chegar-nos através de um amigo, do verso dum poeta, duma palavra – os ventos sopram livremente na terra e na alma.

Não sabemos se o salmo 23 foi escrito na Babilónia mas é mais que certo que a imagem de Deus-pastor se desenvolve durante o exílio. Um povo exilado, humilhado e sem templo, conseguiu ver o oásis verdejante junto aos rios da Babilónia, foi capaz de viver aquele deserto como pastagem restauradora, conseguiu ler uma salvação naquela desventura, ver um Deus-pastor num Deus derrotado. A transformação dos acampamentos da Babilónia em prados verdes pelas águas frescas foi possível graças ao talento daquele antigo poeta, mas a alquimia foi possível, também, porque entre os exilados havia profetas. A profecia é o princípio activo que transforma os desertos em oásis, prisões em libertações, o bastão do carcereiro em cajado do bom pastor. Dois profetas que estavam no exílio em Babilónia - o Segundo Isaías e Ezequiel - deram-nos as imagens proféticas mais nítidas do bom pastor, que chegarão aos Evangelhos e os fecundarão: «Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas, Eu as farei descansar - oráculo do Senhor Deus. Procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei a que está ferida e tratarei da que está doente. Vigiarei sobre a que está gorda e forte. A todas apascentarei com justiça» (Ez 34,15-16). É do profeta anónimo, conhecido como Segundo Isaías, o ícone mais sugestivo do "bom pastor", que tanto influenciou a arte e a piedade popular: «Leva os cordeiros ao colo, e faz repousar as ovelhas que têm crias» (Is 40,11). Sem profetas exilados, aquele povo teria deixado de cantar: «Sobre os rios da Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das margens pendurámos nossas cítaras (Sl 137[136],1-2). As cítaras não foram dependuradas para sempre, a alma dos poetas não deixou de cantar porque, graças a estes grandes profetas, o povo exilado fez a experiência do Deus pastor; sentiu que aquela noite era uma travessia no caminho da salvação, era um outro vau nocturno donde sairiam feridos e abençoados. Nenhuma noite mata a alma se um profeta nos revela o sentido. Nas nossas noites, a voz dos profetas pode chegar-nos através de um amigo, do verso dum poeta, duma palavra - os ventos sopram livremente na terra e na alma.