Publicado em 04/03/202604/03/2026Na Antiguidade, há inúmeras figuras divinas e heroicas, nascidas de uma mulher, mas geradas por um deus. O que torna Jesus único, porém, é que não é o deus grego clássico ou o típico herói pagão que golpeia os seus inimigos, que manifesta a sua proveniência divina pelo poder com que mata os seus adversários. O que distingue a divindade de Jesus é que este ser divino é uma vítima – crucificado, humilhado – mesmo que o seu ensinamento não seja de retribuição divina, mas de perdão incondicional.Ora, Paulo diz que Jesus é a imagem do Deus vivo. Se levarmos isto a sério, então isto significa que a imagem de Deus é a fraqueza, uma espécie de força fraca, como a força fraca do perdão. Recordemos a história do Grande Inquisidor: quando Jesus é reconhecido no meio da multidão pelo cardeal, é preso e sujeito a um longo monólogo no qual o Grande Inquisidor adverte Jesus sobre o poder que o cardeal exerce sobre ele, dizendo que planeia executá-lo de manhã, tal como fez com muitos outros que ousaram desafiá-lo no passado. "Porque é que voltaste para interferir no trabalho da Igreja?", pergunta o cardeal. Jesus ouve em silêncio este monólogo e, quando ele termina, aproxima-se do cardeal e beija-o. Este homem poderoso, o cardeal Grande Inquisidor, é desarmado por um beijo. O beijo é a força da fraqueza, como o perdão.A minha interpretação da kénosis surge inicialmente entre os idealistas alemães, que repetem um dito de Meister Eckhart de forma radical: que Deus precisa de nós tanto quanto nós precisamos de Deus. Deus não é um agente ou um hiperser supremamente poderoso, mas uma potência que precisa de vir ao mundo para adquirir actualidade. Deus enquanto tal, no seu puro “an sich sein”, é um ser abstracto, um conceito que precisa de adquirir realidade no mundo e de se tornar divino na e através da humanidade, de modo que Deus não é realmente Deus até nós surgirmos.A vida divina encarna em nós, e somos nós que fazemos todo o trabalho pesado, porque Deus enquanto Deus é uma espécie de conceito abstracto: é em nós que Deus se torna Deus.