Publicado em 27/03/202627/03/2026As primeiras imagens cristãs eram interpretadas por referência às Escrituras ou à doutrina, como meras ‘ilustrações’ de um texto ou processo intelectual. Mas um bom número de pinturas funerárias romanas em catacumbas e túmulos indica que as primeiras imagens cristãs estavam a fazer mais do que criar uma ‘Bíblia para analfabetos’. Os académicos têm dificuldade em explicar a presença de Orfeu, imagens dionisíacas e até Hércules e Atena em câmaras funerárias cristãs. Mesmo em cenas ostensivamente bíblicas, deparamo-nos com Jesus a segurar uma varinha enquanto ressuscita Lázaro e Noé a emergir de uma caixa após o dilúvio sem um barco ou um par de animais à vista. A abordagem intelectualizada da interpretação dos artefactos visuais tem sido posta em causa na História da Arte em geral e a arte cristã primitiva é neste sentido um caso especial. Sendo o cristianismo uma religião revelada, com um texto divino que o autoriza, pode parecer lógico interpretar as imagens à luz desse texto e referir toda a interpretação a ele e à teologia que o expõe. Mas será que "texto" e "leitura" tinham o mesmo significado para os cristãos antigos que têm para nós? Num mundo em que três quartos da população eram analfabetos, o conhecimento e a divulgação do cristianismo não poderiam ter sido uma questão de leitura, pelo menos não da forma como a entendemos hoje. Não existia nada remotamente parecido com alfabetização em massa nas sociedades greco-romanas, porque as forças e instituições necessárias estavam ausentes. Não se pode supor que os cristãos diferissem da população em geral, apesar da importância do texto revelado, dado que o conhecimento das escrituras não exigia que a maioria dos cristãos fossem individualmente capazes de as ler e não implica que o fossem. Como as próprias escrituras indicam, o cristianismo foi difundido pela pregação e, no seu período inicial, assemelha-se mais a uma tradição oral do que à nossa forma familiar de alfabetização. A cultura literária da Antiguidade era também profundamente oral na sua essência. Os autores escreviam ou ditavam prestando atenção ao som das palavras e partindo do pressuposto de que o que escreviam seria lido em voz alta.