Publicado em 20/03/202620/03/2026A outra figura histórica indissociavelmente ligada a Niceia é o imperador Constantino, que gera questões interpretativas igualmente complexas. O seu papel na convocação e presidência do Concílio é bem conhecido, mas o debate continua aceso quanto às suas motivações e aos resultados que almejava. Tinha por certo abraçado alguma forma de cristianismo e favorecia-a, mas os estudiosos debatem-se com questões sobre a profundidade da sua compreensão, a sinceridade das suas crenças e o seu interesse em promulgar uma versão particular da fé em detrimento de outras. Esta última questão explica também porque é que a relação de Constantino com o Concílio de Niceia é tão complicada. Seriam os seus motivos teológicos? Políticos? Pragmáticos? Constantino foi, sem dúvida, um dos “vencedores” da história e, no entanto, pelos padrões estritamente “nicenos”, deveríamos hesitar em considerá-lo um ortodoxo, dado que foi batizado apenas no seu leito de morte por Eusébio de Nicomédia, um bispo decididamente não-niceno. Contudo, a mesma Arquidiocese Ortodoxa Grega da América que condena Ário reconhece inequivocamente Constantino (e sua mãe Helena) como um santo “igual aos Apóstolos”, que “em 325 convocou o Primeiro Concílio Ecuménico em Niceia, ao qual ele próprio discursou pessoalmente”. A Igreja Episcopal afirma que “Constantino foi um forte defensor do cristianismo e procurou construir um império cristão”.Assim, mesmo nesta análise superficial da recepção de Niceia em diversas tradições cristãs, ficamos com a impressão de que o concílio foi um dos momentos mais importantes da história da Igreja, um ponto em que os seus líderes afirmaram uma das crenças fundamentais da fé: a divindade de Jesus. Mas, por muito que a versão de Dan Brown sobre o primeiro imperador cristão seja altamente inverosímil, o mesmo se poderia dizer da fácil confirmação de Constantino como estando do "lado certo" em Niceia. Estas visões díspares devem fazer-nos reflectir, e devemos considerar se não teremos nós também recebido e aceitado implicitamente a narrativa dos vencedores.