Publicado em 26/03/202626/03/2026A aura cultural, ou o que quer que seja, que nos isola da natureza consiste, entre outras coisas, em palavras, e a parte verbal da mesma é aquilo a que eu chamo mitologia, ou a estrutura total da criação humana transmitida por palavras, com a literatura no seu centro. Tal mitologia pertence ao espelho, não à janela. Está concebida para traçar uma circunferência em torno da sociedade humana e refletir as suas preocupações, e não para olhar diretamente para a natureza exterior. Quando o homem finalmente se dedica a fazê-lo, precisa de desenvolver a linguagem especial da ciência, uma linguagem que se torna cada vez mais matemática na sua expressão. Muitas coisas precisam de convergir numa cultura antes que a ciência possa começar, e quando começa, não descende nem surge diretamente da mitologia. As afirmações mitológicas sobre a natureza são meramente grotescas ou tolas se forem consideradas explicações pré-científicas da mesma.Os primeiros estudiosos da mitologia, é certo, gostavam de a considerar uma ciência primitiva, porque esta visão implicava um contraste tão lisonjeiro entre as visões primitivas da natureza e as suas.Assim, temos Frazer a definir mito como noções erradas de fenómenos naturais, e Max Müller a falar da mitologia como uma doença da linguagem. Se tivesse dito que a linguagem era uma doença da mitologia, a afirmação teria sido igualmente falsa, mas consideravelmente mais interessante. No entanto, esta atitude foi sobretudo um subproduto de uma ideologia europeia concebida para racionalizar o tratamento dado aos povos não europeus no século XIX. A mitologia é o embrião da literatura e das artes, não da ciência, e nenhuma forma de arte tem a ver com o fazer afirmações diretas sobre a natureza, erradas ou corretas. Da mesma forma, tal como a ciência não surge da mitologia, nunca a poderá substituir. A mitologia é recriada pelos poetas de cada geração, enquanto a ciência segue o seu próprio caminho.