O anateísmo é a atitude religiosa que Kearney perfilha para a espiritualidade do nosso tempo; 'kenosis' é o termo que S. Paulo utiliza numa célebre passagem da Carta aos Filipenses para designar o significado da Encarnação. Fazendo-se humano como nós, o Filho de Deus “rebaixou-se” e humilhou-se a ponto de ser tratado como um criminoso e sofrer a morte na cruz.À primeira vista, o prefixo grego 'ana-' poderia ser entendido negativamente, como se o argumento de Kearney fosse uma negação do ateísmo, da mesma forma que o prefixo é utilizado na palavra italiana para “sem álcool” – 'analcolico'. No entanto, 'ana-' significa tanto “ascensão” como “regresso”. Kearney não enfatiza ambos os significados. Prefere o segundo – retorno. No entanto, não diria que o primeiro significado, “ascensão”, está totalmente ausente. Como o leitor perceberá, para Kearney o 'regresso' implica sempre algum momento de plena iluminação, algum tipo de alcance do ápice, que coincide certamente com a noite escura que muitos místicos relatam, mas que, no entanto, conserva o carácter de um momento decisivo. Kearney concebe este momento como uma espécie de evidência, em consonância com a tradição da fenomenologia que herdou do seu mentor, Ricoeur. Portanto, o significado do prefixo 'ana-' não é apenas uma questão filológica, mas também filosófica; parece-me que ele marca a pequena, mas não insignificante, diferença através da qual penetro o discurso de Kearney e, ao fazê-lo, indica o único caminho interpretativo que desejo indicar.A cultura em que vivemos tende a considerar-se o ponto de chegada de um desenvolvimento. Nos esquemas filosóficos predominantes (cuja origem é Hegel, mas que são também genericamente positivistas e inspirados pelo Iluminismo), tal desenvolvimento é concebido como originário de fases primordiais caracterizadas pelo teísmo e por uma religiosidade não raras vezes supersticiosa. De seguida, o progresso evoluiu através da ciência e da tecnologia em direcção à “morte de Deus” de Nietzsche (a ideia de Deus se revelar como uma mentira já não necessária ao homem tecnocientificamente desenvolvido); isto é, para um ateísmo teórico e prático cada vez mais generalizado.

O anateísmo é a atitude religiosa que Kearney perfilha para a espiritualidade do nosso tempo; 'kenosis' é o termo que S. Paulo utiliza numa célebre passagem da Carta aos Filipenses para designar o significado da Encarnação. Fazendo-se humano como nós, o Filho de Deus “rebaixou-se” e humilhou-se a ponto de ser tratado como um criminoso e sofrer a morte na cruz.À primeira vista, o prefixo grego 'ana-' poderia ser entendido negativamente, como se o argumento de Kearney fosse uma negação do ateísmo, da mesma forma que o prefixo é utilizado na palavra italiana para “sem álcool” - 'analcolico'. No entanto, 'ana-' significa tanto “ascensão” como “regresso”. Kearney não enfatiza ambos os significados. Prefere o segundo - retorno. No entanto, não diria que o primeiro significado, “ascensão”, está totalmente ausente. Como o leitor perceberá, para Kearney o 'regresso' implica sempre algum momento de plena iluminação, algum tipo de alcance do ápice, que coincide certamente com a noite escura que muitos místicos relatam, mas que, no entanto, conserva o carácter de um momento decisivo. Kearney concebe este momento como uma espécie de evidência, em consonância com a tradição da fenomenologia que herdou do seu mentor, Ricoeur. Portanto, o significado do prefixo 'ana-' não é apenas uma questão filológica, mas também filosófica; parece-me que ele marca a pequena, mas não insignificante, diferença através da qual penetro o discurso de Kearney e, ao fazê-lo, indica o único caminho interpretativo que desejo indicar.A cultura em que vivemos tende a considerar-se o ponto de chegada de um desenvolvimento. Nos esquemas filosóficos predominantes (cuja origem é Hegel, mas que são também genericamente positivistas e inspirados pelo Iluminismo), tal desenvolvimento é concebido como originário de fases primordiais caracterizadas pelo teísmo e por uma religiosidade não raras vezes supersticiosa. De seguida, o progresso evoluiu através da ciência e da tecnologia em direcção à “morte de Deus” de Nietzsche (a ideia de Deus se revelar como uma mentira já não necessária ao homem tecnocientificamente desenvolvido); isto é, para um ateísmo teórico e prático cada vez mais generalizado.

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