Pierre Hadot recordou-nos que a filosofia dos antigos não se limitava a descrever uma visão teórica da realidade, mas delineava também um modo de vida com os consequentes “exercícios espirituais diários” reciprocamente relacionados com essa visão ou teoria da realidade. A meu ver, uma das principais tarefas da teologia e da filosofia contemporâneas é reunir uma visão ou teoria da realidade a um modo de vida, como se pode observar em diversas tentativas nesse sentido, como as de Wittgenstein ou do Foucault tardio.Vários filósofos modernos tentaram corajosamente sanar as separações fatais impostas pela modernidade clássica do Iluminismo. Em primeiro lugar, a separação entre pensamento e sentimento; donde os romances de Kearney e as suas frequentes recuperações filosóficas das tradições literárias e filosóficas irlandesas, tradições particularmente ricas em filosofias e literatura apaixonadas e reflexivas, de João Escoto a Seamus Heaney. Em segundo lugar, a separação entre forma e conteúdo; donde, a hermenêutica de Kearney enquanto narrativa.Em terceiro lugar, a separação entre teoria e práxis, incluindo a separação entre teoria e modo de vida. O anateísmo é um modo de vida, tal como eu o interpreto, uma aposta num modo de vida relacionado com a visão ou teoria do Deus que pode ser. Daí a insistência de Kearney numa aposta anateísta que se torne um modo de vida intelectual e espiritual para o filósofo, ao abraçar a “tensão fértil entre o teísmo e o ateísmo nos nossos dias” e, desse modo, recuperar, através dessa tensão, os pensadores radicalmente apofático-místicos em todas as tradições — por exemplo, na tradição cristã de Mestre Eckhart ou Marguerite Porete. Pois precisamente através das suas noites escuras e das suas experiências de nada, as tradições místicas apofáticas de contemplação produzem um choque, como diz Breton – um choque de nada que nos devolve à vida ordinária, à beleza da própria poesia na natureza (como em João da Cruz, Gerard Manley Hopkins e Teresa de Ávila), e às lutas por uma justiça e um amor impossíveis que estão por vir, nas nossas sociedades radicalmente injustas (Simone Weil, Dorothy Day, Walter Benjamin).

Pierre Hadot recordou-nos que a filosofia dos antigos não se limitava a descrever uma visão teórica da realidade, mas delineava também um modo de vida com os consequentes “exercícios espirituais diários” reciprocamente relacionados com essa visão ou teoria da realidade. A meu ver, uma das principais tarefas da teologia e da filosofia contemporâneas é reunir uma visão ou teoria da realidade a um modo de vida, como se pode observar em diversas tentativas nesse sentido, como as de Wittgenstein ou do Foucault tardio.Vários filósofos modernos tentaram corajosamente sanar as separações fatais impostas pela modernidade clássica do Iluminismo. Em primeiro lugar, a separação entre pensamento e sentimento; donde os romances de Kearney e as suas frequentes recuperações filosóficas das tradições literárias e filosóficas irlandesas, tradições particularmente ricas em filosofias e literatura apaixonadas e reflexivas, de João Escoto a Seamus Heaney. Em segundo lugar, a separação entre forma e conteúdo; donde, a hermenêutica de Kearney enquanto narrativa.Em terceiro lugar, a separação entre teoria e práxis, incluindo a separação entre teoria e modo de vida. O anateísmo é um modo de vida, tal como eu o interpreto, uma aposta num modo de vida relacionado com a visão ou teoria do Deus que pode ser. Daí a insistência de Kearney numa aposta anateísta que se torne um modo de vida intelectual e espiritual para o filósofo, ao abraçar a “tensão fértil entre o teísmo e o ateísmo nos nossos dias” e, desse modo, recuperar, através dessa tensão, os pensadores radicalmente apofático-místicos em todas as tradições — por exemplo, na tradição cristã de Mestre Eckhart ou Marguerite Porete. Pois precisamente através das suas noites escuras e das suas experiências de nada, as tradições místicas apofáticas de contemplação produzem um choque, como diz Breton - um choque de nada que nos devolve à vida ordinária, à beleza da própria poesia na natureza (como em João da Cruz, Gerard Manley Hopkins e Teresa de Ávila), e às lutas por uma justiça e um amor impossíveis que estão por vir, nas nossas sociedades radicalmente injustas (Simone Weil, Dorothy Day, Walter Benjamin).

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