A objecção de Kant recupera precisamente a expressão central do chamado argumento ontológico de Santo Anselmo, segundo o qual aquilo a que poderíamos chamar “Deus” deveria ser maior do que qualquer representação ou pensamento que possamos ter dele. Portanto, o argumento de Kant contra a existência de Deus é exactamente idêntico ao de Anselmo a favor da existência de Deus. Não devemos resistir a revisitar o argumento de Anselmo em vez do de Kant, pois, se pudéssemos pensar em algo como “Deus”, deveríamos ser capazes de pensar em algo maior do que aquilo que podemos pensar. Trata-se de um paradoxo — um paradoxo verdadeiro apenas no caso de Deus. Só tal paradoxo é verdadeiro para Deus enquanto Deus. Se não fosse tal paradoxo, então não estaríamos a pensar em Deus, mas num ídolo, num ídolo metafísico.Assim, quando tantos se dedicam à tentativa intelectual de desconstruir o vazio do lugar de Deus, por vezes ignoram ou negligenciam o facto de que o verdadeiro legado do “cristianismo” para o pensamento humano reside precisamente no facto de que o lugar de Deus é vazio — e deve ser vazio. A minha pergunta é: o que significa dizer que o lugar de Deus é vazio? Se não fosse vazio, continuaria a ser uma parte do mundo que não pertence a Deus, porque Deus não admite outro lugar senão em si mesmo (tudo permanece dentro de Deus, e Deus, em nenhum outro lugar senão em si mesmo). Assim, concluo que devemos levar muito a sério o facto de que, se Deus é Deus, esta deve ser uma excepção.