Publicado em 17/03/202617/03/2026Como é que o perdão e a graça não privam o mal da sua natureza, da sua gravidade? Ninguém, excepto o rei Alonso, reconhece a culpa ou pede perdão, e Próspero não o exige nem sequer espera que lho peçam. Já escolheu a virtude em vez da vingança antes mesmo de lhes devolver a capacidade de falar e pedir o seu perdão, caso assim o desejem. Desde pelo menos a época de Lutero que fervilhavam pela Europa debates acérrimos sobre como reconciliar o pecado e a graça. O lado da Reforma rejeitava o purgatório por o considerar contrário às Escrituras e, consequentemente, rejeitava também as indulgências e as orações pelos mortos. Rejeitava a canonização dos santos e o tesouro do mérito. Rejeitava a confissão auricular e a absolvição sacerdotal. Rejeitava a "salvação pelas obras", o que englobava peregrinações e doações, votos, cruzadas e qualquer outra prática empreendida com a intenção de atenuar o pecado aos olhos de Deus. Em vez disso, insistia na fé somente, nas Escrituras somente, em Cristo somente, na graça somente. Esta foi uma profunda transformação nas entranhas da civilização ocidental, que revolucionou a estrutura da sociedade e até a consciência individual.Em vez de obrigar Shakespeare a tomar um lado ou outro, como frequentemente fazem os críticos e os biógrafos, ou de supor que estas questões que absorveram tantos dos melhores espíritos de Inglaterra e da Europa não tinham lugar nos seus pensamentos, como os críticos e biógrafos costumam fazer, digamos que se interessava por elas de forma inteligente, como fazia com tantos outros temas. Como lidar com a culpa alheia, real ou imaginária? Como suportar ou aliviar o próprio sentimento de culpa? Histórias, tragédias e comédias também giram em torno destas questões, e de uma ainda maior. Como viver neste mundo caído, com todos os seus perigos e tentações, se a graça é considerada o padrão de uma vida virtuosa? Quem poderá atingir um tal padrão ou ser-lhe fiel? Que resposta encontrará onde se manifestar? E o que é a alma, a essência humana para a qual todas estas questões têm um significado infinito?