Publicado em 12/03/202612/03/2026O encanto de um pensamento inspirado: 'minhas pernas estão doces de tanto andar.' 'Fui dar um corte por aí', dizeres que o povo diz e que me deixam insone. Quem achou tais formas de dizer buliu em coisas mais sérias. A música é uma palavra, mas a palavra palavra, o nome articulável, é ainda mais perfeito? A tensão amorosa de Deus passeia no mundo, somos estúpidos, por isso captamos tão pouco. Quem diz: eu gosto da cor verde alardeia sua incomensurável originalidade, digo sem galhofa. Gostar de certa cor é formidável. Já falei com muita certeza: o contrário da fé é orgulho. Neste momento minha certeza se abala, a cada segundo mudam as figuras no caleidoscópio. No entanto, e aqui fico perplexa, o mistério me torna muda, porque Dionélia, quando borda aqueles ramos de flores nos seus panos de prato, sente exatamente o que eu sinto quando leio estes versos: "Como esses primitivos que carregam por toda a parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio…" O que é real me apela à fraternidade. O que não me fizer irmão é intrujice do diabo, que tem por ofício baratear a beleza, enfeitar a língua de Deus, a que está ao alcance de todos, até do bobo Zé Binha, o que viu meus peitos como dois limõezinhos. O movimento mais puro é o de louvor, a língua resgatada dos limites hostis que nossa parte pobre acentua, a língua como a bondade, espontânea, indiscursiva como todo dom, o homem fora de si: 'Laudato sie Misignore, cum tucte le tue criature', a palavra para nomear o que Deus fez por nós, capaz de cravar no corpo as cinco chagas, o caráter divino, o deslimite.